Não só espaços para a exploração criativa da tecnologia, mas também espaços de convivência, de estar junto para trocar ideias, e até mesmo, em alguns casos, buscar formas de intervir na realidade local. Assim podem ser definidos os hackerspaces brasileiros pelo quadro levantado em pesquisa recente que realizei junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, vinculado ao IBICT e à UFRJ.

Como há certa nebulosidade na caracterização de hackerspaces, makerspaces e fablabs, adotei o critério da autodenominação, isto é, foram considerados hackerspaces os espaços que se definiam como tal. Dessa forma, consegui identificar 21 deles ativos no País no ano de 2017. Em seguida, entrei em contato para passar um questionário, que obteve taxa de resposta de 75%. Alguns dados coletados chamaram a atenção na pesquisa.

O primeiro deles foi a localização regional desses espaços. A região Sudeste, como era de se esperar, é a que reúne a maior parte, com oito deles, como o pioneiro Garoa Hacker Clube, criado em 2010 na cidade de São Paulo, que é ainda a maior referência para todos, o mais bem equipado e um dos mais ativos do País.

No entanto, logo a seguir e de forma menos óbvia, vem a região Nordeste com seis casos e atuação bem destacada. O mais conhecido é o Raul Hacker Club, em Salvador/BA. Entre os projetos que desenvolvem está o Criança Hacker, que mais do que meramente ensinar tecnologia para os pequenos, pretende fazer com que aprendam que as tecnologias podem ser construídas, desconstruídas e modificadas, seguindo os ensinamentos da cultura hacker.

Outro exemplo de destaque na região é o Teresina Hacker Clube que já na sua apresentação se define como um espaço colaborativo para desenvolvimento de tecnologias que possam ajudar na superação de problemas de ordem social, política ou econômica. Com isso em vista, eles desenvolveram o indexador de dados públicos Peba, através do qual é possível ter acesso aos gastos dos deputados federais de todo o País.

Um dado interessante constatado na pesquisa foi a relação desses espaços com instituições formais de ensino. Por um lado, no perfil dos participantes, observou-se a presença de estudantes de graduação em 100% dos casos e de estudantes de pós-graduação em 15 das 16 respostas obtidas. Além disso, também é grande a presença de professores universitários (em dois terços dos casos) e pouco mais da metade tem também estudantes e professores de ensino médio como associados.

Por outro lado, 3/4 dos espaços desenvolvem algum projeto ou atividade em colaboração com universidade e pouco menos da metade com escolas de ensino médio. Outro ponto ainda a somar é o fato de que dois hackerspaces funcionam dentro de universidades: o LabHacker, na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), e o Tarrafa Hacker Clube na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  Verifica-se, portanto, grande interlocução e circulação de pessoas entre esses dois ambientes de pesquisa, produção de conhecimento e aprendizado: o institucional e o alternativo.

No geral, foi observada uma grande diversidade de experiências em território nacional, abrangendo áreas e temas bem diferentes. Em Brasília, o Calango Hacker Clube desenvolve o projeto Monitora Cerrado, para medir de forma autônoma a umidade na capital federal, índice bastante crítico na região e com forte impacto na saúde pública. Já o LabHacker, em Santigo/RS, realiza anualmente uma campanha de coleta e reciclagem de lixo eletrônico na região, em parceria com a prefeitura local, quando recebe até dois caminhões de equipamentos sem uso ou danificados.

Outro exemplo marcante é a Baia Hacker, em Itu/SP e Porto Feliz/SP, que já mereceu um post especial no site Em Rede, quando foi visitado para a pesquisa. Com participantes de formação mais humanística do que técnica, ali a tecnologia não está no centro das atividades mas serve de apoio a outras ações, com destaque para as produções culturais, como os expressivos Saraus Hacker e o Festival Lado B.

Vale mencionar ainda o MariaLab, que era itinerante até então e este ano inaugurou a sua sede própria, como um hackerspace feminista. Aliás, a questão de gênero, que não estava a princípio no foco da pesquisa, apareceu como parte das atividades nas respostas de mais seis hackerspaces. De fato, uma questão emergente que impõe cada vez mais nos mais diversos espaços da sociedade.

Então, afinal, o que são hackerspaces? São espaços de estar, aprender e produzir juntos e que se norteiam pelos preceitos da cultura hacker (conhecimento aberto, produção colaborativa e autonomia) para desenvolver uma ampla diversidade de projetos e atividades. Neste post tentei dar um resumo geral do que pude apurar de sua experiência no ano de 2017 no Brasil.

Seguindo os princípios da Ciência Aberta, vários dados da pesquisa, inclusive as respostas ao questionário estão disponíveis online. Se quiser saber mais, acesse: https://autoriaemrede.wordpress.com/hackerspaces-no-brasil/

<A foto que ilustra este post é do Garoa Hacker Clube e está disponível neste endereço: https://garoa.net.br/wiki/Arquivo:Garoa_o_que_fazemos.png>

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